Prezado leitor,
Estou prestes a te enviar algumas cartas que ficarão guardadas neste site, para que você possa revisitá-las quando quiser. Ou quando precisar.
E eu quero começar te contando o porquê dessas cartas. Apesar de sempre gostar de escrever, eu nem sempre investi meu tempo em textos mais pessoais ou sobre a minha forma de ver e levar a vida. Até agora.
E o que mudou?
Bom… a psicologia clínica apareceu na minha vida.
Leitor, eu comecei a atender em 2023, durante o estágio clínico da faculdade. E foi ali que aprendi uma das lições mais importantes da minha trajetória. Mas antes de te contar qual foi, preciso te dar um pouco de contexto. Acontece que eu sempre fui uma pessoa muito estudiosa. E não era apenas porque gostava de estudar, mas porque eu sempre vi o estudo como o caminho. Quando eu tinha um sonho, a pergunta era quase automática: como os estudos poderiam me aproximar do meu objetivo?
E esse caminho sempre funcionou.
Na escola, trouxe boas notas. Depois, no vestibular, me levou à vaga na universidade pública. Mais tarde, na faculdade, abriu as portas para a iniciação científica e para bolsas de monitoria.
Minha dedicação quase sempre era recompensada. Quanto mais eu estudava, melhores eram os resultados.
Até que, pela primeira vez, isso deixou de ser suficiente.
Na prática da psicologia, notas altas, domínio dos conceitos e boa memória para teorias não bastavam. E eu aprendi isso com 21 anos, quando cheguei ao meu primeiro atendimento clínico, com as mãos suando e um frio enorme na barriga. Aprendi quando entrei na clínica-escola e vi meu primeiro paciente sentado na sala de espera, olhando para o chão e esperando por mim. Naquele momento, eu percebi que devorar livros e tirar boas notas não tinha me preparado para aquele momento.
Eu sabia, sim, como conduzir uma anamnese. Eu sabia o que deveria perguntar. Eu tinha estudado sobre como registrar a sessão no prontuário. Mas eu não sabia o que dizer quando me aproximasse daquela pessoa pela primeira vez.
Eu deveria apertar sua mão ou abraçá-lo? Sorria muito ou pouco? Quem entrava primeiro na sala: eu ou o paciente? Eu podia levar meu café? Se pudesse, deveria oferecer um também? Qual deveria ser minha primeira pergunta? Eu precisava estar muito elegante? Eu deveria estar usando um salto alto para parecer mais profissional? E se eu aparecesse de All Star… será que perderia minha autoridade?
E, acima de tudo…O que eu precisava fazer para que aquela pessoa, que nunca tinha me visto antes, sentisse que podia confiar em mim?
E foi naquele instante, quando fui inundada por tantos questionamentos acelerados, que eu percebi que havia uma pergunta ainda maior: Além de dominar técnicas, o que realmente faz alguém ser uma boa psicóloga? Ali, minha forma de enxergar a profissão mudou, pois, pela primeira vez na minha vida, a resposta não era simplesmente: estude mais.
Estudar continuava sendo importante. Muito importante. Mas era apenas uma parte.
De nada adiantaria conhecer todas as teorias se eu não conseguisse transmitir gentileza em um aperto de mão. E de nada serviria dominar técnicas se meu paciente não se sentisse seguro ao olhar para mim; se eu não conseguisse demonstrar que estava verdadeiramente escutando sua dor, que eu o enxergava e que ele não precisava enfrentar tudo aquilo sozinho.
E a forma de demonstrar tudo isso, gentileza, empatia e ternura, sempre partia de um mesmo movimento: estar ali, cem por cento presente com aquela pessoa. Me conectar com ela. O resto era só resto. Porque, leitor, saber que alguém está verdadeiramente ali por você muda tudo. Saber que alguém tem interesse genuíno pela sua história te transforma. E, para muitos, é na terapia que essa será a primeira vez em que alguém fará isso por eles.
Hoje, acho que essa foi a maior lição que a psicologia me deu.. Ela me colocou num lugar de questionamento, em que eu precisava saber o que em mim me faz humana, e o que em mim abriria espaço para criação de um vínculo. E é justamente das respostas que fui encontrando nos últimos anos que estas cartas nascem.
Aqui, quero compartilhar o que penso, o que sinto e o que aprendo. E, se isso fizer sentido para você, talvez sejamos duas pessoas conectadas por algumas palavras. A conexão humana mantém o trabalho da terapia vivo. Mas, antes disso, é ela que nos mantém vivos.
Por isso, vou escrever. Vou te enviar cartas.
Então, leitor, sente-se no sofá, prepare uma bebida reconfortante e volte de vez em quando para conferir sua caixa de correio.
Será um prazer ter você por aqui. Seja bem-vindo.
Com carinho,
Thaís

